terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Entrevista com o psicanalista José Ângelo Gaiarsa

Polêmico até o fim

por Anderson Fernandes
Dezenove dias antes de falecer enquanto dormia, na manhã do sábado de 16 de outubro, vítima de causas naturais, o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, 90 anos, revelou à reportagem da Psique Ciência & Vida alguns desânimos. No início, o encontro era para produzir a entrevista principal desta edição de aniversário, mas com a notícia de sua morte, a pauta ganhou um espaço diferenciado para homenagear um dos grandes personagens da Psicanálise brasileira.

Era após o almoço, numa terça-feira, e ele atendeu a equipe da revista da forma mais à vontade possível: de camiseta, calça de moletom, pés metidos em um chinelo confortável e touca esquentando a cabeça calva. Não deu sinais de esgotamento físico. Falou e gesticulou por duas horas sem reclamar, com a verve do iconoclasta que sempre foi: irreverente, crítico terrível dos cursos de Psiquiatria. Mmas estava desanimado. "Estou cansado de adultos", deixou escapar numa de suas respostas.

Gaiarsa foi convencido de que a fase em que o ser humano mais aprende é aquela até os quatro anos de idade. Ele adorava crianças, sua espontaneidade e falta de limites. No apartamento da arborizada zona oeste de São Paulo, o psicanalista autor de mais de 30 livros em 54 anos de carreira - mantinha um mural de fotos de crianças. Ano passado, o livro Educação Familiar e Escolar para o Terceiro Milênio rendeu a Gaiarsa o prêmio Estatueta com Pedestal, a mais alta homenagem da Academia Iinternacional para o Desenvolvimento do Ccérebro Iinfantil, sediada na Filadélfia, nos Estados Unidos. A obra trata do desenvolvimento físico, cerebral e emocional das crianças.

Em setembro o especialista brasileiro ainda concluía a revisão do livro Respiração, Angústia e Renascimento, que pretendia relançar em novembro. Sua maior preocupação era, contudo, a forma resignada com que os humanos se deixam podar após a primeira infância, crescendo para a maturidade como pessoas limitadas, verdadeiras múmias, em sua visão um tanto radical. Cconheça os últimos pensamentos de José Ângelo Gaiarsa, colhidos nesse encontro de setembro e mantidos, até aqui, inéditos.

Sobre a validade, nos dias de hoje, da teoria de Freud acerca da histeria humana:

"No início Freud foi estudar Neurofisiologia, só depois veio para a Cclínica. E ele notou duas espécies básicas daquele tempo: as mulheres, que classificou de histéricas, e os homens, que definiu como obsessivos compulsivos. Então, quase tudo na Psicanálise gira em torno disso. Mmas acontece que as histéricas são mulheres muito vivas, num mundo de múmias."

Sobre o processo em que seres humanos são podados e cercados de limitações ao ponto de se transformarem em múmias:


"Ninguém usa nem 5% dos movimentos que poderia fazer. Pense: do que consiste a educação da criança? Refiro-me sempre à mentira total que está nos livros de Pedagogia. Educar consiste em oferecer à criança as melhores oportunidades para ela desenvolver todas as suas habilidades. Essa é a definição mais aceita, certo? Mmas qual é a palavra que a criança mais escuta? É o 'não'. Não vai, não corre, não pula, não mexe, não ria, não cante, não faça nada. Você pensa que está desenvolvendo a criança, mas acaba por desenvolver um paralítico, que não se mexe.

A história do Pinóquio é exatamente o contrário do que acontece na realidade. Toda criança nasce criança, mas acaba um boneco bem educado. Educar consiste em podar movimentos, porque educar a criança livre dá muito trabalho. E o adulto não sabe enfrentar a riqueza motora de uma criança. Tome uma criança esperta, um garotinho de quatro a cinco anos: se ele faz uma arte, tente correr, ir atrás dele para ver se você o pega. Jamais. Quando ele chega aos sete, oito anos, já se deixa alcançar, porque só dele saber que o adulto o está procurando, já começa a ficar amarrado."

Sobre as publicações da área e a falta de um estudo mais profundo das reações do organismo no campo da Psicologia:


"Já faz tempo que eu leio revistas de Psicologia, e tenho vontade de escrever para eles: 'Escuta, vocês não desconfiam que o corpo existe? Porque toda Psicologia que eu vejo fala, fala, fala, explica, interpreta Freud, Llacan e outros, e ninguém enxerga a importância do corpo. É uma falta total de compreensão do corpo. Ele está ausente por completo. Oo que sobra são os espíritos tagarelas. Revista, por exemplo, eu já não folheio mais. Estou cansado de Psicologia falada e mais nada, sem corpo. As publicações precisam perceber que o corpo existe, que não somos só conversa fiada."

Sobre a clínica psicanalítica, os métodos criados por Freud, a contramão de Llacan e sua polêmica opinião acerca dessas tradições:
"Por que Freud colocou a pessoa no divã? Para não se envolver. Em todas as escolas de Psicologia, a recomendação é de que o profissional não se envolva. Mmas o que quer dizer essa imbecilidade? Mme diz, como é que eu faço isso? Bem, eles explicam que devemos ficar de costas para o paciente. Assim, não o vemos, e é bem mais fácil. isso é só conversa. Aqui lembro Jung, de quem, aliás, gosto muito: 'Quem não se envolve, não se desenvolve.' Você só irá se desembaraçar, se você se sentir amarrado. Mme diga como vou influir no pensamento de alguém, se sou uma múmia paralítica diante dele, se só falo? Jung tinha uma clinica muito especial. Ele cuidava de gente mais velha, frequentemente eram os estrangeiros que o procuravam. E ele se deixava envolver sim.

Há uma história que eu adoro. Jung recebeu uma mulher americana, que já havia se consultado com dois outros psicanalistas, e estapeado ambos. Ela era rica. Llogo começaram a se desentender, e quando ela ameaçou bater nele, Jung disse: 'A senhora primeiro, mas depois a senhora leva.' Iimagina se um psicanalista vai fazer isso. É capaz dele apanhar e ficar quieto. Aliás, eu já vi isso. Ccoisas constrangedoras, de terapeutas que chegam a ser agredidos, ou quase, e deixam passar. Não respondem a agressão. Preferem explicá-la."

Sobre sua predileção pelas crianças, em detrimento da convivência com adultos:

"Estou cansado de adultos. Eu gosto de crianças, tenho um álbum de fotos só de crianças. Em nosso mundo, o bebê é um boneco desconjuntado. Ele não sabe fazer nada, você precisa dar de mamar e carregar no colo. Enquanto isso, você não se dá conta de que ele está aprendendo tudo o que acontece à sua volta. Oo bebê está lá, percebendo tudo, vendo tudo. As crianças realmente enxergam quando te olham. De zero a quatro anos, o cérebro cresce 90% do que ele vai crescer. Iisso quer dizer que o cérebro de uma criança de quatro anos se assemelha muito ao de um adulto.

Quem não conhece cérebros, não saberia diferenciar. Freud, por exemplo, diz: 'A infância é inesquecível.' Já nós, adultos, usamos o cérebro para falar. Sabemos de tudo, desenvolvemos nossa inteligência e, assim, ficamos parados. Nossa espécie está no rumo firme da extinção. Vivemos competindo. Graças ao capitalismo, vivemos para subir e com medo de cair. Perceba: vivemos entre a agressão e o medo. É todo mundo brigando para subir, pisando no de baixo. E ninguém nota esse movimento. Trata-se, na verdade, de uma pirâmide. Quanto mais alto, menos gente; quanto mais baixo, mais pessoas, mais fome, etc. A humanidade é um inferno."

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